19 de maio de 2008

MEDIDA (por Tereza Cristina Otoni)

Nossa concepção ético-moral está baseada na noção adquirida em nossas experiências domésticas, sociais e religiosas, das quais nos servimos para emitir opiniões ou pontos de vista, a fim de harmonizarmos e resguardarmos tudo aquilo em que acreditamos como sendo “verdades absolutas”. Em outras palavras, como forma de defender e proteger nossos “valores sagrados”, isto é, nossas aquisições mais fortes e poderosas, que nos servem como forma de sustentação. Em razão disso, os freqüentes julgamentos que fazemos em relação às outras pessoas nos informam sobre tudo aquilo que temos por dentro.

“Eu reconheço aquilo que conheço”.

Explicando melhor, a forma e o material utilizados para sentenciar os outros residem dentro de nós.Tomarmos a decisão de visualizar bem fundo nossa intimidade, e nos perguntarmos onde está tudo isso em nós. As situações ou as pessoas podem ser consideradas, nesses casos, excelentes espelhos, nos quais podemos ver quem somos realmente. Ao mesmo tempo esta parece ser uma ótima oportunidade de nos reformarmos intimamente, pois estaremos analisando as características gerais de nossos conceitos e atitudes inadequados.

Só podemos nos reabilitar ou reformar até onde conseguimos nos perceber. Ou seja, aquilo que não está consciente em nós dificilmente conseguimos reparar ou modificar. Quando não enxergamos a nós mesmos, nossos comportamentos perante os outros não são totalmente livres para que possamos fazer escolhas ou emitir opiniões.

Estamos amarrados a formas de avaliação, estruturadas nos mecanismos de defesa: processos mentais inconscientes que nos possibilitam manter nossa integridade psicológica através de uma forma de auto-engano.

Alguns de nós, simplesmente por não conseguem conviver com a verdade, tentam sufocar e enclausurar os sentimentos e emoções, disfarçando-os no inconsciente. Em todo comportamento humano existe uma lógica, uma maneira particular de raciocinar sobre sua verdade. Julgar, medir e sentenciar, não se levando em conta suas realidades, mesmo sendo consideradas preconceituosas, neuróticas, é não ter bom senso ou racionalidade, pois na vida somente é válido e possível o autojulgamento.

Normalmente descobrimos nossas próprias formas de encarar a vida e tendemos a usar as oportunidades vivenciais, para tornarmo-nos tudo aquilo que nos leva a ser um eu individualizado.

Podemos reavaliar nossas idéias desatualizadas, que estreitam nossa personalidade, e, a partir daí, observar o mundo, apreciando sua singularidade, pois tudo tem uma consciência própria e diversificada das outras consciências.

Segundo Paulo de Tarso, “é indesculpável o homem, quem quer que seja, que se arvora em ser juiz. Porque julgando-os outros, ele condena a si mesmo, pois praticará as mesmas coisas, atraindo-as para si, com seu julgamento”. Evidencia-se nessa afirmativa que todo comportamento julgador estará, na realidade, estabelecendo não somente uma sentença, ou um veredicto, mas, ao mesmo tempo, um juízo, um valor, um peso e uma medida de como julgaremos a nós mesmos. Essencialmente, tudo aquilo que decretamos ou sentenciamos tornar-se-á nossa real medida: como iremos viver com nós mesmos e com os outros.

Somos um campo magnético que atrai pessoas e situações, as quais se sintonizam amorosamente com nosso mundo mental, ou mesmo antipatizam com nossa maneira de ser. Dessa forma, nossas afirmações prescreverão as águas por onde a embarcação de nossa vida deverá navegar.

Com freqüência, escolhemos, avaliamos e emitimos opiniões e, conseqüentemente, atraímos tudo aquilo que irradiamos. Uma parte considerável desses pensamentos e experiências, os quais usamos para julgar e emitir pareceres, acontece de modo automático, ou seja, através de mecanismos não perceptíveis.

É quase inconsciente para nossa casa mental o que escolhemos ou opinamos, pois, sem nos darmos conta, acreditamos estar usando o nosso “arbítrio”, mas, na verdade, estamos optando por um julgamento predeterminado e estabelecido por “arquivos” que registram tudo o que nos ensinam a respeito do que deveríamos fazer ou não, sobre tudo que é errado ou certo.

Um comportamento é completamente livre para eleger um conceito eficaz somente quando as decisões não estão confinadas a padrões mentais rígidos e inflexíveis, não estão estruturadas em preconceitos e não estão alicerçadas em idéias ou situações semelhantes que foram vivenciadas no passado.

Nossos julgamentos serão sempre os motivos de nossa liberdade ou de nossa prisão no processo de desenvolvimento e crescimento espiritual.

Para sermos livres realmente e para nos movermos em qualquer direção com vista à nossa evolução e crescimento como seres imortais, é necessário observarmos e concentrarmos nossos “pesos” e “medidas”, a fim de que não venhamos a sofrer constrangimento pela conduta infeliz que adotarmos na vida em forma de censuras e condenações diversas.

25 de março de 2008

Palavras guardadas


Maria Inez,

Nasceste com nome da virgem santa e sobrenome de rainha... Exclusividade não? De certo modo sim, porém, afirmar que és santa ensejaria renegar a existência de seres humanos que, simultaneamente, são parte de ti e integram o teu majestoso reinado; este, regido e cultuado com valores assimilados no surpreendente, indelicado e verdadeiro banco escolar: o da vida.

Creio que jamais pensaste que estaria onde estás hoje. Brotaste em um lugar no qual as ofertas de evolução e as condições de sobrevivência são objetos de anseio e de escassez ainda hoje, contudo, predestinados vêm ao mundo para brilhar, tipo as estrelas, e a enorme probabilidade de também deixarem uma vasta trilha, feito a de um cometa, não se descarta. Por isso, para nós, tua família, és estrela a cintilar constantemente e um cometa a indicar suavemente direções no céu desse reinado de 57 anos.

No curso de tua existência, dentre vários feitos, foste capaz de gerar três vidas. Estas, conservam as peculiares formas boleadas do teu gene e mostram que, entre as particulares e personalidades diversas, pactuam de um mesmo apreço, respeito, admiração e sentimento de amor por ti.

As águas de Março estão a passar e a promessa de mais vida nos corações de teus escolhidos é evidente, pois, por mais um ano tiveram o prazer de ter-te no comando do império e o anseio que a tua direção seja longínqua é imensurável.

Na confiança da bondade e benção divinas, e que a tua permanência entre todos que te amam seja duradoura, deixo-te a seguinte mensagem: “Somos do tamanho que acreditamos ser, e a dimensão de alguém não se estabelece pela estatura, pela inteligência, pelas posses ou pelo nome, encontra-se, unicamente, nos atos e os reflexos destes na vida de alguém”.
Te amamos!

3 de março de 2008

Sentir...

Há momentos em nossa vida que jamais deveriam deixar de existir... Mas acho que se assim não acontecesse não haveria a lembraça e a vontade de reviver instantes tais quais os que consideramos inesquecíveis.

Atravessamos dia e noite sem ao menos notar situações significantes, mas num simples gesto observamos coisas que juramos não ter tanta importância e defrontamo-nos com o equívoco. Alguns valores questionados, lições enlatadas, sugestões tipo receitas de bolo, olhos que não vêem, mãos que não sentem, gestos calculados, julgamentos... A dialética do certo e do errado nos consome para que atinjamos mais os acertos que os aprendizados. O quê fazer? Dar as costas, fazer de conta que nada está acontecendo, desdenhar, não se sentir pertencente aos acontecimentos, para alguns, é sinal de fraqueza. Sei não, mas acho que todas essas formas foram escudos encontrados para dirimir situações inevitáveis na vida de qualquer ser humano.

Entender é bem mais difícil que sentir. Ou será que é o contrário? Enfim, cada um tem a sensibilidade ou racionalidade que merece - ou exercita -, contudo, entendo que a vida não teria tanta graça se entendêssemos muito e sentíssemos pouco. Vejo que para entender algo necessita-se, primeiramente, sentir. Está certo que cada um tem a sua forma e seu grau de sensibilidade, por isso há várias interpretações, mas nada melhor que racionalizar por meio do sentir. Acho que isso parece filosofia, mas tente enxergar essa capacidade.

30 de janeiro de 2008

Cirurgia de lipoaspiração? (Herbert Viana)

Recebi esta mensagem via e-mail, e não sei se quem a concebeu foi realmente o Herbert Viana. Contudo, independente da veracidade da fonte, o conteúdo e a essência da mensagem transmitem uma REALIDADE e não um PENSAMENTO que gostaria de ter escrito, porém não tive a inspiração divina de materializá-la.
Junior Lopes
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Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração? Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, Deus é a auto-imagem. Religião, é dieta. Fé, só na estética. Ritual é malhação. Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem. Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação. Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso... A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem? A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. Não importa o outro, o coletivo.
Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada. Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal, mas... Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva. "Cuide bem do seu amor, seja ele quem for ".

15 de janeiro de 2008

Axé music, música de verdade? (por Gabriela Modesto)

Incentivada a tirar de uma vez por todas essa idéia que na Bahia não há música de verdade e apoiada pela nossa acalorada discussão, resolvi pesquisar a fundo as raízes da minha terra.
Engana-se quem pensa que só de oi, oi, ai, ai, ai é feita a axé music. Influenciados por Dorival, Gil, Caetano, Moraes, Gal, Pepeu e Baby, os novos baianos mostram que o tabuleiro da baiana tem mais que caruru e vatapá. A música é uma forte arma de reivindicação e protesto, mas também um instrumento de diversão e através dela um povo expressa sua cultura. Composto de mais de 80% de negros e seus descendentes, os baianos apóiam sua musicalidade nas origens africanas, e através das cores, ritmos e dança criou uma música ímpar que atravessa mais de duas décadas e encanta baianos e turistas de todo o mundo.
Pra começar, podemos citar o grito de protesto do Olodum que no final dos anos 80 cantou: “ Força e pudor, liberdade ao povo do Pelô... Declara a nação, Pelourinho contra a prostituição (naquela época o Pelourinho era um centro de prostituição e ruínas prestes a desabar). Faz protesto, manifestação. E lá vou eu... Aqui se expandiu e o terror já domina o Brasil... Brasil nordestiópia. Na Bahia existe Etiópia. Pro Nordeste o país vira as costas. E lá vou eu... Contra o Aparthaid lá na África do Sul. Vem saudando o Nelson.” (Protesto Olodum. Letra de tatau). Assim como esta, o Olodum criou diversas músicas com cunho social, entre elas: “...Veja o mundo imenso sem ninharia. Fome, desemprego e ambição. Na base de tudo tem coisa de racismo, que faz da violência tradição... Clamo a tolerância, Clamo a paz, harmonia para o mundo florescer. Mas não é só o Olodum quem faz estes tipos de música. Um dos primeiros sucessos do Chiclete com Banana foi: “ Vou caminhando entre flores e guerras, vou deslizando entre o bem e o mal. Um pouco louco entre monstros e feras. Sou cavalheiro do juízo final. A esperança é uma flecha de fogo, que faz arder o meu coração. Eu canto e grito de novo, paz nesse mundo e união" E Daniela Mercury, uma das precursoras da Axé Music cantou a música escrita pelo então desconhecido Beto Jamaica: “Vou dar a volta no mundo, eu vou. Vou ver o mundo girar, mas eu só saio daqui quando o coral negro passar.. Onde não se divide, nem se discrimina. É o carnaval... O negro não desiste, ele só persiste em sobreviver... Pela sua história e sua melhoria é o que o faz crescer (Crença e fé). Os novos baianos também cantam a vida e a urgência de se viver em sua plenitude: Tenho a vida doida, encabeço o mundo. Sou ariano torto (o que na verdade todo brasileiro é, um mistiço) vivo de um amor profundo. Sou perecível ao tempo, vivo por um segundo. Perdoa meu amor esse nobre vagabundo” (Nobre vagabundo. Cantado por Daniela Mercury). Canta a valorização do povo negro e luta pela sua auto- estima: “ O mais belo dos belos, sou eu sou eu... Não me pegue não, me deixe a vontade... Deixe eu curtir o Ilê, o charme da Liberdade” (cantado por Daniela Mercury).
Mas o axé music também tem muito de romantismo, e derrama todo o sentimentalismo em trechos como estes: “Eu não posso deixar que o tempo te leve jamais para longe de mim, pois o nosso romance, minha vida, é tão lindo. És quem manda e desmanda nesse coração que só bate em razão de te amar. Daria o mundo a você se preciso. Você tem o aroma das rosas me envolve em teu cheiro e assim faz ninar. A imensa vontade de estar ao seu lado. Nem o mar tem o brilho encantante como o dos teus olhos minha pedra rara. Eu não vou negar, sem você meu mundo pára. Mil voltas, e voltas que dei, querendo talvez encontrar alguém que levasse a sério amar...” (Beleza rara. Cantado por Ivete Sangalo). Ou mesmo: “Amor de verdade eu só sentir foi com você meu bem... Você já faz parte da minha vida, e fica tão difícil dividir você de mim...” (Mal acostumado. Letra de Araketu).
A música baiana também canta seu povo, suas ruas, praças, praias, sua cultura enfim, e uma prova é um dos hinos dos baianos, cantados por Moraes Moreira: "Ah! Imagina só que loucura essa mistura. Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia. De todos os cantos, encantos e axés, sagrado e profano, o baiano é carnaval..." Isso é maravilhoso, pois preserva nossa cultura e incentiva a economia do turismo
Assim como qualquer artista ou qualquer estilo musical, o axé music tem letras instrutivas e outras não, letras de protesto, letras que cantam o amor, e também letras que querem apenas embalar a multidão pelo extasiante ritmo. Não podemos rotular um grupo de artistas ou estilo musical a partir de meia dúzia de músicas.

Não acho que brasileiros devessem desvalorizar a música baiana e diminuí- la ao cargo de sub-música. Temos que nos orgulharmos de saber que graças a música criada naquele remoto ponto de terra no nordeste brasileiro, a cultura de um país é levada pra outros cantos do mundo e apreciada por muitos.