Nossa concepção ético-moral está baseada na noção adquirida em nossas experiências domésticas, sociais e religiosas, das quais nos servimos para emitir opiniões ou pontos de vista, a fim de harmonizarmos e resguardarmos tudo aquilo em que acreditamos como sendo “verdades absolutas”. Em outras palavras, como forma de defender e proteger nossos “valores sagrados”, isto é, nossas aquisições mais fortes e poderosas, que nos servem como forma de sustentação. Em razão disso, os freqüentes julgamentos que fazemos em relação às outras pessoas nos informam sobre tudo aquilo que temos por dentro.
“Eu reconheço aquilo que conheço”.
Explicando melhor, a forma e o material utilizados para sentenciar os outros residem dentro de nós.Tomarmos a decisão de visualizar bem fundo nossa intimidade, e nos perguntarmos onde está tudo isso em nós. As situações ou as pessoas podem ser consideradas, nesses casos, excelentes espelhos, nos quais podemos ver quem somos realmente. Ao mesmo tempo esta parece ser uma ótima oportunidade de nos reformarmos intimamente, pois estaremos analisando as características gerais de nossos conceitos e atitudes inadequados.
Só podemos nos reabilitar ou reformar até onde conseguimos nos perceber. Ou seja, aquilo que não está consciente em nós dificilmente conseguimos reparar ou modificar. Quando não enxergamos a nós mesmos, nossos comportamentos perante os outros não são totalmente livres para que possamos fazer escolhas ou emitir opiniões.
Estamos amarrados a formas de avaliação, estruturadas nos mecanismos de defesa: processos mentais inconscientes que nos possibilitam manter nossa integridade psicológica através de uma forma de auto-engano.
Alguns de nós, simplesmente por não conseguem conviver com a verdade, tentam sufocar e enclausurar os sentimentos e emoções, disfarçando-os no inconsciente. Em todo comportamento humano existe uma lógica, uma maneira particular de raciocinar sobre sua verdade. Julgar, medir e sentenciar, não se levando em conta suas realidades, mesmo sendo consideradas preconceituosas, neuróticas, é não ter bom senso ou racionalidade, pois na vida somente é válido e possível o autojulgamento.
Normalmente descobrimos nossas próprias formas de encarar a vida e tendemos a usar as oportunidades vivenciais, para tornarmo-nos tudo aquilo que nos leva a ser um eu individualizado.
Podemos reavaliar nossas idéias desatualizadas, que estreitam nossa personalidade, e, a partir daí, observar o mundo, apreciando sua singularidade, pois tudo tem uma consciência própria e diversificada das outras consciências.
Segundo Paulo de Tarso, “é indesculpável o homem, quem quer que seja, que se arvora em ser juiz. Porque julgando-os outros, ele condena a si mesmo, pois praticará as mesmas coisas, atraindo-as para si, com seu julgamento”. Evidencia-se nessa afirmativa que todo comportamento julgador estará, na realidade, estabelecendo não somente uma sentença, ou um veredicto, mas, ao mesmo tempo, um juízo, um valor, um peso e uma medida de como julgaremos a nós mesmos. Essencialmente, tudo aquilo que decretamos ou sentenciamos tornar-se-á nossa real medida: como iremos viver com nós mesmos e com os outros.
Somos um campo magnético que atrai pessoas e situações, as quais se sintonizam amorosamente com nosso mundo mental, ou mesmo antipatizam com nossa maneira de ser. Dessa forma, nossas afirmações prescreverão as águas por onde a embarcação de nossa vida deverá navegar.
Com freqüência, escolhemos, avaliamos e emitimos opiniões e, conseqüentemente, atraímos tudo aquilo que irradiamos. Uma parte considerável desses pensamentos e experiências, os quais usamos para julgar e emitir pareceres, acontece de modo automático, ou seja, através de mecanismos não perceptíveis.
É quase inconsciente para nossa casa mental o que escolhemos ou opinamos, pois, sem nos darmos conta, acreditamos estar usando o nosso “arbítrio”, mas, na verdade, estamos optando por um julgamento predeterminado e estabelecido por “arquivos” que registram tudo o que nos ensinam a respeito do que deveríamos fazer ou não, sobre tudo que é errado ou certo.
Um comportamento é completamente livre para eleger um conceito eficaz somente quando as decisões não estão confinadas a padrões mentais rígidos e inflexíveis, não estão estruturadas em preconceitos e não estão alicerçadas em idéias ou situações semelhantes que foram vivenciadas no passado.
Nossos julgamentos serão sempre os motivos de nossa liberdade ou de nossa prisão no processo de desenvolvimento e crescimento espiritual.
Para sermos livres realmente e para nos movermos em qualquer direção com vista à nossa evolução e crescimento como seres imortais, é necessário observarmos e concentrarmos nossos “pesos” e “medidas”, a fim de que não venhamos a sofrer constrangimento pela conduta infeliz que adotarmos na vida em forma de censuras e condenações diversas.
