Incentivada a tirar de uma vez por todas essa idéia que na Bahia não há música de verdade e apoiada pela nossa acalorada discussão, resolvi pesquisar a fundo as raízes da minha terra.
Engana-se quem pensa que só de oi, oi, ai, ai, ai é feita a axé music. Influenciados por Dorival, Gil, Caetano, Moraes, Gal, Pepeu e Baby, os novos baianos mostram que o tabuleiro da baiana tem mais que caruru e vatapá. A música é uma forte arma de reivindicação e protesto, mas também um instrumento de diversão e através dela um povo expressa sua cultura. Composto de mais de 80% de negros e seus descendentes, os baianos apóiam sua musicalidade nas origens africanas, e através das cores, ritmos e dança criou uma música ímpar que atravessa mais de duas décadas e encanta baianos e turistas de todo o mundo.
Pra começar, podemos citar o grito de protesto do Olodum que no final dos anos 80 cantou: “ Força e pudor, liberdade ao povo do Pelô... Declara a nação, Pelourinho contra a prostituição (naquela época o Pelourinho era um centro de prostituição e ruínas prestes a desabar). Faz protesto, manifestação. E lá vou eu... Aqui se expandiu e o terror já domina o Brasil... Brasil nordestiópia. Na Bahia existe Etiópia. Pro Nordeste o país vira as costas. E lá vou eu... Contra o Aparthaid lá na África do Sul. Vem saudando o Nelson.” (Protesto Olodum. Letra de tatau). Assim como esta, o Olodum criou diversas músicas com cunho social, entre elas: “...Veja o mundo imenso sem ninharia. Fome, desemprego e ambição. Na base de tudo tem coisa de racismo, que faz da violência tradição... Clamo a tolerância, Clamo a paz, harmonia para o mundo florescer. Mas não é só o Olodum quem faz estes tipos de música. Um dos primeiros sucessos do Chiclete com Banana foi: “ Vou caminhando entre flores e guerras, vou deslizando entre o bem e o mal. Um pouco louco entre monstros e feras. Sou cavalheiro do juízo final. A esperança é uma flecha de fogo, que faz arder o meu coração. Eu canto e grito de novo, paz nesse mundo e união" E Daniela Mercury, uma das precursoras da Axé Music cantou a música escrita pelo então desconhecido Beto Jamaica: “Vou dar a volta no mundo, eu vou. Vou ver o mundo girar, mas eu só saio daqui quando o coral negro passar.. Onde não se divide, nem se discrimina. É o carnaval... O negro não desiste, ele só persiste em sobreviver... Pela sua história e sua melhoria é o que o faz crescer (Crença e fé). Os novos baianos também cantam a vida e a urgência de se viver em sua plenitude: Tenho a vida doida, encabeço o mundo. Sou ariano torto (o que na verdade todo brasileiro é, um mistiço) vivo de um amor profundo. Sou perecível ao tempo, vivo por um segundo. Perdoa meu amor esse nobre vagabundo” (Nobre vagabundo. Cantado por Daniela Mercury). Canta a valorização do povo negro e luta pela sua auto- estima: “ O mais belo dos belos, sou eu sou eu... Não me pegue não, me deixe a vontade... Deixe eu curtir o Ilê, o charme da Liberdade” (cantado por Daniela Mercury).
Mas o axé music também tem muito de romantismo, e derrama todo o sentimentalismo em trechos como estes: “Eu não posso deixar que o tempo te leve jamais para longe de mim, pois o nosso romance, minha vida, é tão lindo. És quem manda e desmanda nesse coração que só bate em razão de te amar. Daria o mundo a você se preciso. Você tem o aroma das rosas me envolve em teu cheiro e assim faz ninar. A imensa vontade de estar ao seu lado. Nem o mar tem o brilho encantante como o dos teus olhos minha pedra rara. Eu não vou negar, sem você meu mundo pára. Mil voltas, e voltas que dei, querendo talvez encontrar alguém que levasse a sério amar...” (Beleza rara. Cantado por Ivete Sangalo). Ou mesmo: “Amor de verdade eu só sentir foi com você meu bem... Você já faz parte da minha vida, e fica tão difícil dividir você de mim...” (Mal acostumado. Letra de Araketu).
A música baiana também canta seu povo, suas ruas, praças, praias, sua cultura enfim, e uma prova é um dos hinos dos baianos, cantados por Moraes Moreira: "Ah! Imagina só que loucura essa mistura. Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia. De todos os cantos, encantos e axés, sagrado e profano, o baiano é carnaval..." Isso é maravilhoso, pois preserva nossa cultura e incentiva a economia do turismo
Assim como qualquer artista ou qualquer estilo musical, o axé music tem letras instrutivas e outras não, letras de protesto, letras que cantam o amor, e também letras que querem apenas embalar a multidão pelo extasiante ritmo. Não podemos rotular um grupo de artistas ou estilo musical a partir de meia dúzia de músicas.
Não acho que brasileiros devessem desvalorizar a música baiana e diminuí- la ao cargo de sub-música. Temos que nos orgulharmos de saber que graças a música criada naquele remoto ponto de terra no nordeste brasileiro, a cultura de um país é levada pra outros cantos do mundo e apreciada por muitos.
Não acho que brasileiros devessem desvalorizar a música baiana e diminuí- la ao cargo de sub-música. Temos que nos orgulharmos de saber que graças a música criada naquele remoto ponto de terra no nordeste brasileiro, a cultura de um país é levada pra outros cantos do mundo e apreciada por muitos.
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