18 de maio de 2010

A felicidade vazia


Às vezes somos surpreendidos por textos capazes de retratarem fielmente aquilo que pensamos sobre determinado assunto. O texto abaixo, de autoria de Martha Medeiros, é um desses exemplos, pois registra de maneira clara e direta que a máxima de que a "grama do vizinho cresce mais rápido e é mais bonita" que a da nossa casa é uma mera falácia.

Num mundo cada vez mais competitivo e repleto de exigências sociais para uma "autoaceitação", nada mais apropriado que observar que todos somos iguais, porém, alguns, fazem questão de ocultar seus próprios infortúnios deixando patente uma felicidade que ao fundo apresenta-se vazia.

É natural do ser humano ressaltar suas qualidades em detrimento de seus pontos a melhorar. Ninguém gosta de reconhecer que precisa se aperfeiçoar em determinado âmbito, tampouco regozija-se em evidenciar tal constatação. Penso que tudo é uma questão de autodefesa, entretanto, nem por meio desse artifício protetivo há condição de esconder o que de fato se possui na essência.

Parte da felicidade não está na observação de como se comporta a "grama do vizinho" e sim de como a nossa própria grama se desenvolve; perceber quais são os elementos que a tornam mais viva e que a deixam mais radiante são primordiais.

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A MASSACRANTE FELICIDADE DOS OUTROS

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco.

Há no ar um certo queixume sem razões muito claras. Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso?

Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: "Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento". Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados. Pra consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta.

Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem. Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores? Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?

Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista. As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento.

Martha Medeiros

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