18 de outubro de 2010

Espiritismo e rito

Em virtude de debate surgido no estudo do ESME (Estudo Sistematizado da Mediunidade), senti a necessidade de reunir mais informações a respeito da assertiva de que dentro da religião Espírita não há rito.

Num primeiro instante, a discussão pairou sobre a acepção da palavra rito, da qual extraiu-se o entendimento de que seria uma sequência de etapas/momentos destinados ao alcance de um fim específico. Contudo, para os defensores da ideia de que não há rito no Espiritismo, àquela inteligência foi recharçada com o argumento de que essas etapas não passariam de mera organização do trabalho espírita. Certo é que saí com uma tremenda dúvida e resolvi pesquisar para saná-la.

A primeira fonte de pesquisa foi o dicionário Aurélio, no qual encontrei a seguinte definição sobre rito: "sm 1. As regras e cerimônias próprias da prática de uma religião. 2. Culto; religião. 3. Qualquer cerimônia sagrada ou simbólica."

Não satisfeito com o conceito dado pelo dicionário, busquei auxílio da web e na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rito) encontrei reforço sobre o tema, a saber: "O termo Rito tem vários sentidos. Rito é totalmente diferente de rituais. Muitas pessoas acham que essas duas palavras vêm do mesmo significado, mas rito e rituais têm significados diferentes. No sentido mais geral, um rito é uma sucessão de palavras, gestos e atos que, repetida, compõe uma cerimônia (religiosa ou civil, na maior parte das vezes). Apesar de seguir um padrão, o rito não é mecanizado, pois pode atualizar um mito e, assim, segue ensinamentos ancestrais e sagrados. É um conjunto de atividades organizadas, no qual as pessoas se expressam por meio de gestos, símbolos, linguagem e comportamento, transmitindo um sentido coerente ao ritual. O caráter comunicativo do rito é de extrema importância, pois não é qualquer atividade padronizada que constitui um rito. A palavra "rito" pode também designar tipo de velocidade no ritual de processo jurídico.

Ao seguir em direção a outra fonte, a qual relaciona-se diretamente com a doutrina espírita, encontrei um texto bastante elucidativo sobre o assunto, de autoria de Luiz Signates (http://www.gers.com.br/pag_artigos/artigos/o_espiritismo_e_os_ritos.pdf), no qual, de maneira corajosa e fundamentada, o autor defende a ideia de que há sim ritos na doutrina espírita, ainda que em discurso os espíritas neguem a sua existência.

Pois bem. Embora já tivesse opinião formada em 90%, o que inevitavelmente me levava à parcialidade, busquei novas informações para que confirmasse o meu entendimento de que há, sim, dentro da doutrina espírita rito, malgrado nos seja repassada a informação de sua inexistência. Deixo claro que o objetivo da presente análise não é sobrepôr uma convicção em detrimento de outra, mas atuar, exercitar e interpretar com racionalidade os ensinamentos difundidos em grupo de estudo.

Em sendo assim, é fato que o texto de Luiz Signates contribuiu em muito para o assentamento da ideia da existência de rito dentro da doutrina. Porém, ao pesquisar outras bases para reafirmar a minha convicção, percebi que em nenhuma das linhas do pentatêuco espírita (até onde sei e estudei) não há manifestação/indicação de que o Espiritismo está completo, formado, fechado, avesso à evolução ou à novas ideias. Pelo contrário, é recomendado que naquilo em que a ciência for capaz de contrariar aos princípios espíritas, que a sigamos. Ora, o que isso quer dizer?

É oportuno destacar que, até os dias atuais, a ciência não foi capaz de refutar as bases espíritas, o que nos leva a crer que seus princípios e ensinamentos não podem ser encarados como fraudulentos. Assim sendo, frisa-se que o Espiritismo não é dogmático (por sinal essa indiscutibilidade é elemento de formação à existência de rito), isso porque suas bases são alicerçadas pela tríade da filosofia, ciência e religião, o que já nos sugere inferir que a razão sobrepõe a todo e qualquer tipo de ação impensada e, portanto, o raciocínio intelectualizado, em predominância, nos leva a destinos inusitados.

Nesse esteio, é cabível lembrar que à época em que ocorreu a codificação da doutrina, não havia centro espírita (como se vê em grande número atualmente), tampouco a necessidade de sistematização de procedimentos para a realização de reuniões; talvez seja essa uma das explicações da declaração de inexistência de rito. Havia sim reuniões das quais o interesse pelo fenômeno suplantava a necessidade de aprendizado visando o aperfeiçoamento moral, o que não reclamava organização aos adeptos.

Outro ponto que levanto como bandeira solitária é que, embora o rito esteja presente, em sua essência, o rito ("[...]sucessão de palavras, gestos e atos que, repetida, compõe uma cerimônia[...]") não é elemento básico para que o espírita possa atingir os seus objetivos pessoais dentro da religião. É clara a desnecessidade de um intermediador, de palavras ditas sem contexto/finalidade e de movimentos repetitivos sem funcionalidade, uma vez que, toda e qualquer ação para atingir o fito principal propagado pela doutrina (evolução moral) decorre e depende, única e exclusivamente, do próprio indivíduo. Dessa forma, não há necessidade de local específico, procedimentos padronizados ou qualquer outra coisa nesse sentido. Assim, não fica difícil concluir que não há "procedimentos padrões" para o estabelecimento de comunicação com Deus; há sim uma preparação, peculiar a qualquer forma de concentração, para a fixação de uma interface com a divindade.

Por fim, ressalto que a minha opinião sobre este assunto não reflete a inteligência da predominância, tampouco tem o condão de modificar o que já está fixado nos ensinamentos espíritas. Porém, por saber que a religião não é dogmática e felizmente nos permite o exercício da fé raciocinada, penso que a declaração contrária aos seus ditames em nada desmerecerá os seus princípios, pelo contrário, só vem reforçá-los.

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