Leito 13, portador de neoplasia maligna no pulmão, com feridas em MMII, febril, taquicárdico, hipertenso, dispnéico, escleróticas ictéricas, mucosa bucal alterada, filho de Dona Maria, irmão de Joana, casado com Filomena, pai de José, ansioso, com medo. Medo da morte, de deixar o filho recém-nascido nesse mundo cruel e tão desumano; almejando carinho, um toque, atitudes remotas nesse contexto, onde a identidade das pessoas é o leito, a enfermidade; onde o escutar atento e o olhar são substituídos por procedimentos, simples técnicas, pensando os executores que, dessa forma, “fazendo”, “estão com” os pacientes. Nessa esfera, onde nos vêem apenas como “aquele que tem câncer, o do leito 13”, onde esquecem que somos, filho, esposo, irmão, pai, com problemas, não só orgânico, mas de desemprego, familiar, ... Ser humano parece-me algo tão longínquo, obsoleto. Aqui soa até como defeito! Defeito? Estabelecer um diálogo verdadeiro, atento, um olhar que diz “Oh, estou com você”, ouvir as minhas interrogações e não fugir das respostas que tanto anseio, agora tornou-se defeito. Meu Deus! Também, perder tempo com assistência humanizada pra quê? Afinal, tempo, segundo os “racionais”, é dinheiro. Hoje sou eu, com câncer, amanhã será o cardíaco, depois será... Até o dia em que for você, que agora, na condição de assistir, nega uma atitude mais amorosa, mais humana, mais que depois poderá estar implorando por tudo aquilo que eu desejava de você, mas que você não permitiu que eu tivesse.
Que angústia sinto ao defrontar-me com o paciente no leito, sofrendo e implorando pelo fim de sua agonia, clamando pelo fim da falta de ar, pelo término da dor no peito e por um copo de água, que não pode mais ingerir pela presença de um edema acentuado. Sofro por não poder desempenhar melhor a minha atividade, por não prestar uma assistência mais qualificada, por não saber sistematizar aquela assistência que tanto esse paciente implora e necessita. E, ao presenciar essa ante-sala do inferno, sofro mais ainda. Sofro pela falta de orientação por parte dos “grandes mestres” que cruzaram (e ainda cruzam) a minha vida acadêmica e que apenas passaram por mim, sem ao menos dizer assim: “Oh, existe uma coisa chamada de processo de enfermagem, viu?”. E são esses os responsáveis por nós! Futuros enfermeiros que promoverão saúde e suprirão as necessidades de saúde da comunidade. E o ciclo provavelmente continuará se repetindo porque hoje estamos aqui ainda sem saber o quê significa fazer enfermagem, sem ainda saber qual a parte que nos cabe nessa árdua missão de promover saúde, sem saber quais são os nossos reais campos de atuação, sem saber, sem saber... Mas amanhã poderemos estar do outro lado, apenas reproduzindo o que hoje aprendemos e vivenciamos na qualidade de aprendizes. E o ciclo torna-se vicioso. E quem mais sofre? Aquele paciente, que se encontra no leito, dispnéico, com dores únicas, pedindo água, enquanto nós, que não fomos informados sobre como detectar as suas necessidades, sobre como implementar uma medida mais eficaz e direcionada para aquele problema, continuamos impotentes diante daquele sofrimento. É patético quando recebemos informações do tipo a sonda vesical, que possui funcionamento perfeito, constitui-se em problema; enquanto o verdadeiro problema é o temor da morte, é a ansiedade, é a auto-imagem afetada que toma conta do paciente e que, fielmente, sem questionar, acreditamos que são problemas menores ou sem importância diante da presença da sonda vesical. Que excelentes profissionais! Criados e acostumados com a pedagogia da transmissão não questionamos e apenas aceitamos o que vem de forma vertical, “de cima”. Assim, realmente somos excelentes profissionais, pois preenchemos as exigências do SISTEMA, aquele que dita às regras e nós apenas cumprimos com o rigor britânico ou como os robôs do Japão, se assim preferir. Também, questionar como? Se não nos lançamos na busca de conhecimentos, se não somos ávidos por informações, se não procuramos possuir subsídios para questionamentos consistentes, com fundamentos? Enquanto não possuirmos conhecimentos, não poderemos “cobrar serviço” de qualidade da outra parte. Por outro lado, enquanto os “orientadores” também não estiverem predispostos e menos resistentes a mudanças na metodologia do ensino, o ciclo continuará e quem realmente continuará sofrendo, cada vez mais próximo do fim, será àquele paciente. Lembra?
Geysa Santos Góis Lopes
Enfermeira
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É oportuno destacar que o texto acima foi concebido quando a autora estava no início da graduação em enfermagem (ano 2000), demonstrando, desde cedo, a sua preocupação e a responsabilidade dos profissionais da saúde em dispensar uma assistência mais humanizada aos pacientes.
Será que esse atendimento só é cabível aos enfermeiros? Que cada profissional busque inserir no seu cotidiano a atenção e dedicação àqueles que acabam por consumir o seu trabalho de forma direta ou indiretamente: o ser humano.

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